Uma aventura na Chapada Diamantina

Fotos:Nilva Rios

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Vista da Chapada, topo do Pai Inácio  

Saímos de Brasília rumo à Chapada Diamantina no sábado, dia 02 de fevereiro, com a expectativa de conhecer as belezas naturais tão famosas. Às seis e vinte rumamos para o Colorado para encontrar o Ricardo Marques, seu amigo Daniel, com quem iríamos partilhar aventura da estrada em alguns dias na Chapada. Nosso plano era ficar dois dias na Chapada e depois encontrar o amigo Baiano em Salvador. 

No posto, reinava um clima de carnaval, com muitos foliões que atravessaram a madrugada. Deixamos essa algazarra e seguimos viagem. Após um dia de viagem, paradas técnicas para abastecimento, almoço, dormimos em Ibotirama. Pelas cidades baianas, especialmente Barreiras, o carnaval estava instalado. Partimos cedo, após uma noite acampados no posto, rumo à fazenda Pratinha, nas proximidades de Lençóis, uma das atrações da Chapada, indicada pelo nosso amigo Eduardo. Ele ficara cerca de 15 dias no lugar, curtindo suas águas azuis e a acolhida dos proprietários Oliveira e Júnior. Depois de alguns sustos, chegamos. 
 
A estrada de terra maltratou o motorhome, ou motor casa, como frisa nosso amigo Ricardo. Como não é um 4x4, depois de buracos, subidas íngremes na estrada de terra, chegamos. Na frente, Ricardo e Daniel foram registrando nosso lento “avançar”. Ao chegar, quase não estacionamos: o flexível da direção hidráulica rasgou e todo o óleo regou a terra seca da fazenda Pratinha. Mas os amigos estavam lá e deram aquela força. No sufoco, um guia de turismo emprestou o óleo: surgia nesse momento mais uma história e uma amizade.

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Enquanto Marcelo foi buscar solução para o problema – uma peça nova – Ricardo, Daniel e eu fomos conhecer a fazenda e seus atrativos. O calor estava insuportável e o rio nos convidava para um mergulho, em suas águas límpidas.  

No retorno, encontramos Marcelo que já havia chegado, porém sem a peça. Era domingo de carnaval, na Bahia: informação só na segunda. Marcelo resolveu, então, consertar a peça. Com ferramentas e ajuda dos amigos refizeram o flexível, testaram e instalaram-no: bingo! A direção hidráulica voltou a funcionar e agora era curtir o passeio e se animar para pegar a estrada de volta para outros lugares, mas antes um mergulho na caverna de águas transparentes, geladas e de um azul exuberante à luz da manhã.  

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Éramos os primeiros visitantes do dia e, talvez por isso, Daniel tenha conseguido ver tartarugas no fundo do rio, no interior da caverna. Eu me contentei com as paredes da gruta – verdadeiro pânico me atingiu ao entrar na caverna escura, iluminada apenas pelas lanternas dos mergulhadores. Mas valeu a pena também. Formações especiais e morcegos eram visíveis à luz da lanterna. Na volta, também pude apreciar a beleza do lago azul e seus peixes, na água translúcida. 

Após esse mergulho – inesquecível -, fomos conhecer a gruta Lapa Doce, também nas imediações. A visita valeu a pena. Muitas fotos para mostrar aos amigos e familiares que ficaram em Brasília. Retornamos à Pratinha, de onde partiríamos no dia seguinte, terça, dia 05 de fevereiro, para Mucugê, ao sul do Parque da Chapada.  

Paramos em Andaraí para almoço e um sorvete caseiro na cidade – recomendação de amigos do Ricardo. Valeu a pena. A cidade simpática, com seus casarios bem conservados. O restaurante, apesar do nome “Tá Lento”, serviu-nos rápido. À tardinha, após subir serras e serras, chegamos a Mucugê, cidade pequena mas de uma beleza especial.  

Casarios antigos muito bem preservados e moradores de uma hospitalidade digna de registro. Não há camping na cidade. Estacionamos na praça da igreja Santa Isabel. Abastecemos nossas caixas de água a partir dos jardins e a energia veio da casa do senhor Gilberto ou “Bebeto”, aposentado do Banco do Brasil, mas que se entretém como garimpeiro. Aquisições de nosso Relações Públicas: Daniel.  

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Era terça-feira de carnaval e também meu aniversário. Não passou em branco. Jantamos deliciosa pizza, com cerveja. Após o jantar, fomos conhecer uma das atrações do local: o cemitério bizantino. Sua característica principal é o de ser construído sobre as pedras. Após a visita, voltamos ao acampamento na praça. Os “homens” da expedição apareceram com brigadeiros, docinhos e mini-bolo, comprados à tarde sem que eu percebesse. Grata surpresa. 

No dia seguinte, partimos para Ibicoara, no motorcasa do Ricardo e na moto que levamos. O destino era visitar a cachoeira do Buracão. Na cidade, procuramos um guia indicado por um casal que fizera o passeio na véspera. Com o guia e Marcelo na moto, seguimos por mais 29 quilômetros de terra, montanhas, vilarejos e areia. Bendita areia e belo tombo dos motociclistas – o guia não gostou muito – mas não houve feridos e nem fotos. Foi tudo muito rápido.  

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Início da caminhada, na trilha leve, de uma hora, hora e meia,  apenas para chegar segundo o guia Élder. Sol de 11 horas na cabeça, seguimos em frente. Marcelo improvisou um chapéu: virou o Shake da expedição. 

No caminho, várias cachoeiras, plantas, mas uma cachoeira em especial nos encantou. Ela brotava das pedras e nas pedras se infiltrava. Simplesmente desaparecia. Finalmente, chegamos ao nosso destino, curiosos para ver a cachoeira do Buracão. Vestidos com coletes, que o Ricardo amou, mergulhamos em direção ao cânion, nadando contra a correnteza para encontrar a “famosa” cachoeira. Já extasiados com a beleza do cânion e seus paredões, ficamos maravilhados quando avistamos a queda d’água, com seus 80 metros de altura. A visão do lugar é indescritível. A força da água e sua cor negra, a velocidade do vento, os paredões rochosos, tudo engrandece o lugar. Não conseguimos um adjetivo que expressasse nossa visão! Após nadar até as rochas debaixo da cachoeira (eu quase desisti, tamanha a força dos ventos) e experimentar a sensação de estar em meio a uma tormenta, saímos nos sentindo privilegiados por conhecer tal lugar.  

Já em terra firme, tiramos os coletes e lanchamos. Após o lanche, iniciamos a caminhada de volta, a estrada de terra e o asfalto esburacado de Ibicoara a Mucugê. Nem tudo pode ser perfeito! 

Quinta-feira, saímos cedo de Mucugê. A próxima parada seria Igatu, a Cidade de Pedra. O problema era qual estrada usar, se de moto ou motorhome,  e se realmente íamos enfrentar o próximo desafio. Enquanto isso, paramos no rio Paraguassu para registrar sua beleza singular. Estávamos na entrada da cidade pela via calçada em pedras. A outra era de terra e tinha ficado para trás. Ricardo foi buscar informações e acabamos arriscando. Para o Ricardo e seu motorcasa, tudo bem, mas para o nosso veículo, muito sufoco. Depois de levarmos mais de uma hora para percorrermos seis quilômetros, chegamos a um entrocamento próximo da cidade. Deixamos nosso motorhome e seguimos a pé. O Ricardo continuou com seu 4x4 mais alguns metros e depois desistiu. Seguimos a pé até a pequena cidade de Igatu e as ruínas da antiga cidade de pedra que, no auge do ciclo do diamante, abrigou mais de 6 mil habitantes. Um passeio diferente. Poderíamos dizer que é a nossa Machu Pichu. Depois de ver as ruínas, o cemitério bizantino (mais um), fomos procurar pelo almoço. Às 15 horas, com muito calor e fome, fomos até a pensão da dona Conceição – era a única opção. Fomos bem recebidos e pedimos a tradicional cerveja para aplacar o calor e a sede. Concordamos todos: foi a melhor Nova Skin que já tomamos na vida, desceu “redonda”...  

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Após o almoço, voltamos para pegar nossos equipamentos, estacionados na pista, e encarar os 6 quilômetros de calçamento até a rodovia pavimentada. Hora de conhecer Lençóis, o morro do Pai Inácio, que já havíamos admirado da rodovia. Apertamos o pé para subir a montanha e apreciar o pôr-do-sol, mas chegamos tarde, avisou-nos o amigo guia da Pratinha, Júnior, aquele que nos dera o óleo.  

No reencontro, marcamos uma visita dele e de sua esposa, Ângela, em “nossas” casas, depois que estivéssemos bem instalados no camping Lumiar, em Lençóis, para que ela conhecesse os equipamentos. Já estávamos instalados quando o casal chegou. Visita agradável, amizade nova se consolidando pelas afinidades. Quase que o Ricardo fica sem seu motorcasa, “sonho” do casal em possuir um semelhante. Ele ficou tentado, mas resistiu... Após o jantar, fomos conhecer o centro da cidade, seu casario, infelizmente não tão bem preservado como o de Mucugê.

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Na sexta, seguimos com Júnior, Ângela e alguns turistas canadenses e americanos para a cachoeira da Fumaça, outro ponto de destaque na Chapada. A caminhada foi dura. Seis quilômetros só para chegar ao destino, com um aclive para ninguém botar defeito: mais de mil degraus naturais, para subir os 800 metros morro acima, sob sol de meio-dia. Aja fôlego! Vencemos. Depois de algumas horas, chegamos ao vale – deslumbrante - com sua  cachoeira que faz jus ao nome – Fumaça. Pela altura da queda d’água (mais ou menos 300 metros) a água não toca o fundo do vale. Com pouca chuva e na seca, às vezes ela desaparece, vira... fumaça. Ainda pegamos um filete de água despencando morro abaixo. Outros nem isso, às vezes, avistam. Tivemos sorte. A visão do vale é outro encanto. Parada para descanso e voltar para tentar subir o já conhecido Pai Inácio. Quando chegamos ao final da trilha já estava muito tarde. Então, resolvemos tomar uma cerveja. Ninguém é de ferro e como disse Ricardo todos “éramos atletas de escritório”.  


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Júnior, nosso guia, sugeriu um mergulho no Mucugezinho antes de chegarmos a Lençóis -  esse local está à beira da rodovia e possui cachoeiras e um belo poço para banho. Mergulho providencial depois dos 12 quilômetros de trilha. Água morna, tranqüila e a cachoeira para massagear os atletas de escritório, no entardecer da Chapada. Pena que o Ricardo tenha ficado fora dessa experiência. Ele preferiu aguardar na picape, enquanto conhecíamos o lugar. Suspeito  que ele estava muito, muito cansado.  

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Em Lençóis, esfomeados paramos na pizzaria para “almoçar”, com nossos novos amigos, dos quais nos despedimos ali, na esperança de reencontrá-los um dia. A cama quentinha nos aguardava. Estávamos todos exaustos. Bom, Daniel ainda tinha pilha para rodar pela cidade. Normalmente, íamos dormir e ele saía para a “gandaia”...  

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Com essa trilha para a Fumaça,  finalmente entendemos o que o guia da cachoeira do Buracão quis dizer com trilhas leves e difíceis e como eram classificadas. Realmente, aja fôlego! Fôlego para caminhar, subir e descer montanhas, mas também para apreciar as belezas do lugar. Imperdível!


Sábado, 9 de fevereiro, dia voltarmos à Brasília. O caminho é longo. Depois de algumas decisões, resolvemos sair mais cedo e “subir” o morro do Pai Inácio. Desta vez, conseguimos. Mais uma vez, sol do meio dia, subimos os 600 metros até o topo. Os encantos e a visão da Chapada a partir desse ponto foi nossa despedida de Lençóis e da Chapada. Valeu a pena a viagem, os amigos e as belezas. E como valeu!
 

Almoçamos no restaurante do posto, ao pé do morro. Tínhamos que continuar nossa viagem e voltar para casa. Na segunda todos tinham encontro marcado com o trabalho. Além disso, nossas famílias ficaram em Brasília: Caio, Thais, Marta e Clarice nos esperavam.  

À noite, passamos por Ibotirama. Estava cedo para montar acampamento e dormir. Paramos em Javi, mas devíamos ter parado mesmo era em Ibotirama, naquele posto da ida, que tinha boa infra-estrutura e era sossegado, embora nossos “companheiros” da Perdigão fizessem muito barulho com seus caminhões frigoríficos.     

Saímos cedo no domingo. Tínhamos muito chão pela frente. Poucas horas mais tarde, um pequeno susto: parado na estrada, encontramos o motorhome do amigo Baiano, que voltava de Salvador. Aquele com quem iríamos nos encontrar nas praias baianas se ele atendesse o telefone.  

Descemos para ver o que acontecia e avisamos os amigos Ricardo e Daniel pelo rádio. À primeira vista, parecia estar abandonado. Felizmente, estavam todos bem, graças a Deus; menos Baiano que comera “qualquer” coisa estragada e estava passando por maus bocados. Mas era só isso e seguimos viagem. Agora éramos três equipamentos.  

Depois de muito rodar, pegar chuva perto de São Desidério, entupir o filtro de óleo do nosso motorhome, “explodir” a mangueira do ar condicionado do Baiano e tantos outros “pit-stops”, paramos no trevo de Planaltina para o último registro: eram 18 horas e perfilamos ao lado dos motorhomes para uma foto da caravana e seus tripulantes. Eu já não me agüentava - uma enxaqueca me levava à loucura... Dali, cada um seguiu até suas casas, sonhando com a próxima aventura em nossas “motor-casas”...  

Por Nilva Rios